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PRIMEIRAS PROVIDÊNCIAS

Manoel Philomeno de Miranda

O abortamento provocado sem justa causa é crime grave, de que o Espírito, somente a contributo de muita aflição se predispõe a reparar, facultando que a vítima renteie-lhe ao lado, em renascimento que ocorrerá futuramente, sob densas cargas de ressentimento e amargura.

Enfermidades de largo porte se encarregam de corrigir a atitude mental do delinqüente que aborta, a fim de que os tecidos sutis do perispírito se recomponham para porvindouros cometimentos na área da maternidade.

Infecundidade e frigidez, qual ocorre com outros problemas femininos decorrem, naturalmente, da usança irregular da sexualidade em encarnação passada bem como de abortos perpetrados pela irresponsabilidade e requintes de egoísmo, que se fazem gênese de neoplasias malignas, logo depois, ou em processos próximos de renascimentos, que exigem ablação dos órgãos genéricos, quando não arrebatam a vida física de maneira fulminante, maceradora.

Não sendo o autor da vida, o homem dela não pode dispor ao talante das paixões primitivas, sem rude comprometimento para si próprio.

Emprestando elementos que corporificam o ser, torna-se instrumento das Leis da Criação que o honram com a oportunidade de cooperar no processo da evolução, não Ihe facultando interrompê-la sem que incida em delito de alta importância.

Por isso que, a sexualidade somente deve ser exercida quando responsável, sob as bênçãos do amor e o amparo da legislação em vigor, representativa, no momento, do grau evolutivo de cada povo.

Em todo renascimento há razões propelentes que conduzem um a outro Espírito, seja pelos automatismos vigentes no Cosmo, seja pelas programações de elaboração cuidadosa, objetivando-se sempre o aperfeiçoamento de cada um, dentro dos impositivos das necessidades que os entrelaçam e seguram.

Desse modo, cada qual renasce, nem sempre onde merece, mas onde os fatores, as condições são-lhe mais propícias para o avanço.

As ingerências precipitadas, nas programáticas das vidas, por este ou aquele motivo, redundam, quase sempre, em decepções, desastres ou perturbações que poderiam ser evitados.

Julinda, imatura e desequilibrada, com viciações que a retinham em malhas de obsessões sutis, porque temesse, inconscientemente embora, a presença do antigo companheiro, agora na condição de filho, não tergiversou em interromper-lhe o processo fetal, tombando em fundo fosso de desequilíbrio psíquico.

O Espírito, sentindo-se frustrado, e porque anelasse pela ocasião que sabia de incalculável proveito, por ser ainda rebelde, deixou-se comburir pelo ódio, persistindo na vingança injustificável, convertida em luta feroz, com o objetivo de eliminar o corpo da inditosa, para aguardá-la depois do túmulo, onde prosseguem desforços de largo porte. . .

As altas doses de sonífero, aplicadas na paciente, provocavam-lhe o entorpecimento espiritual, em cujo estado, graças à invigilância a que se entregara, deixava-se arrebatar pelo Espírito agora, por sua vez, convertido em seu algoz.

Semidesprendida do corpo era conduzida à presença de Entidades perversas residentes no Hospital, que obedeciam ao cruel dirigente do famigerado clã, encarregado de punir os caídos nas teias da alienação mental, como se a Justiça Divina necessitasse de delinqüentes para corrigir infratores.

Não obstante, porque padecendo de cegueira da razão e obstinados na crueza dos propósitos inferiores, tornavam-se instrumentos necessários, complicando a própria situação que deveriam recompor mais tarde...

Quando Julinda foi internada, informantes desencarnados apresentaram a sua ficha com o delito perpetrado ao cruel dirigente espiritual, que se arrogava poderes e domínio sobre os que ali transitavam em ambas faixas vibratórias: da carne e fora dela.

Tratava-se de antigo sexólatra, que se caracterizara, na Terra, por distúrbios de comportamento, portador de grande perversidade, desencarnado há mais de meio século.

Ao desvencilhar-se do corpo, fora conduzido por comparsas antigos a Núcleos Inferiores, nos quais se adestrara para dar curso aos sentimentos nefastos que possuía, sendo alojado, posteriormente, naquele reduto de dores, verdadeiro purgatório espiritual para os incursos nos Códigos Soberanos da Vida.

Vinculado a outros grupos espirituais infelizes, que se interligam, assumindo posições combativas contra o bem e o amor, que detestam, fazem-se crer forças controladoras do além-túmulo, personificando, iludidos, as mitológicas figuras satânicas residentes nas geenas...

Padecendo de auto-hipnose pelo prolongado período em que cultivam as idéias maléficas, deformam as matrizes perispirituais, assomando diante dos que Ihes tombam, inconseqüentes, nos círculos de aflição, em formas temerosas, horripilantes, com as quais aparvalham as futuras vítimas, acostumadas a imagens mentais perniciosas pelos eitos do remorso que impõe justiça.

Outras vezes, são vítimas de mais vigorosas mentes que os submetem, deles utilizando-se para o mesmo indébito fim.

Naquele hospital, Elvídio exercia a administração negativa, atribuindo-se a tarefa de justiçoso, em regime de crueldade.

Visitou a paciente e convocou Ricardo à sua presença, inteirando-se do interesse do abortado e prometendo-lhe cooperação.

Em sucessivas oportunidades, a paciente era levada a simulacros de julgamentos pelo crime, quando se tornava ameaçada por aqueles seres impiedosos, retornando ao corpo, semi-hebetada pelas drogas, com os tecidos sutis da mente em contínuo comprometimento a caminho da irreversibilidade.

No momento em que visitávamos o seu apartamento, não a tínhamos presente, nem tampouco ao seu sicário.

O nobre Bezerra, depois de auscultar o psiquismo de Julinda e reflexionar por um pouco, concertou com o Dr. Figueiredo a respeito de um labor para daí a duas noites, quando seriam tomadas providências para mais cuidadoso atendimento aos incursos no drama ali apresentado.

Ele próprio aplicou recursos magnéticos na obsidiada, fazendo a dispersão dos fluidos tóxicos que a asfixiavam, mediante movimentos longitudinais, rítmicos, logo após insuflando energias restauradoras de forças.

Todo o Amigo Espiritual, ante a prece espontânea que lhe brotou do coração nos lábios e durante a aplicação do passe, aureolou-se de opalina claridade, que se lhe irradiava da região do epigástrio, qual tivesse uma estrela fulgurante entre os hipocôndrios.

A energia que lhe escorria dos dedos venceu as resistências da carapaça de sombras que envolvia a doente, que estorcegou, atingida pelas ondas vibratórias que a alcançavam, para logo depois acalmar-se.

O corpo relaxou os músculos antes retesados e vimos, repentinamente , Julinda-Espírito ser atraída e tombar , adormecida, no casulo carnal.

— Ela terá um sono reparador— esclareceu, gentil — pela primeira vez desde o delito, momentaneamente liberada da agressão de Ricardo.

" os fluidos salutares decorrentes da oração e do amor fraterno de todos nós, anestesiar-lhe-ão os centros psíquicos, de alguma forma atenuando a aflição que a golpeia, contínua. O Senhor não deseja a punição do infrator, mas a sua reeducação com vitória sobre a infração. Como os impositivos da vida são o amor e a justiça, a misericórdia e a caridade jamais se afastam dos que necessitam de renovação e paz, sem que as suas vítimas fiquem em esquecimento. Surge o auxílio ao delinqüente com concomitante socorro ao defraudado. Logo mais, Ricardo será também auxiliado, quando se iniciem os labores em favor de ambos. "

Voltando-se para a genitora comovida, asserenou-a, esclarecendo:

— O amor, em qualquer expressão, é bênção de Deus, vitalizando o mundo. O de mãe, todavia, em razão das energias superiores de que se reveste, é portador de mais forças, encontrando ressonância no Amor de Deus, Nosso Pai, que rege a vida em todas as suas dimensões.

"Agora, tranqüilize-se, irmã Angélica, aguardando o futuro e prosseguindo, confiante, nas suas orações e atividades de amor ao próximo. O bem nunca falha."

Depois de breve pausa, esclareceu:

— Temos de ir-nos. Há serviço de urgência aguardando por nós.

Despedimo-nos do Dr. Figueiredo e da senhora Angélica sob o compromisso de retornarmos em próximos dias.

Fonte: Nas Fronteiras da Loucura, Divaldo Pereira Franco.

 

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